O Encontro é uma Ferida

Fernanda Eugenio (2012)

PT | EN | ES

 

Texto escrito originalmente para integrar a conferência-performance Secalharidade (2012), criada em colaboração com João Fiadeiro (co-produção alkantara festival/Culturgest)

Versões publicadas deste texto | Versions Published

2013. O encontro é uma ferida. In Trilogia Secalharidade. Lisboa: Ghost Editores

2013. An encounter is a wound. In Scores, 3 – uneasy going. Viena: Tanzquartier

2013. O Encontro é uma ferida (Dossier AND Lab). In Revista A.Dnz, ano 1, no.1, Santiago de Chile: Universidade de Chile, Facultad de Artes, Departamento de Danza.

O encontro é uma ferida. Uma ferida que, de uma maneira tão delicada quanto brutal, alarga o possível e o pensável, sinalizando outros mundos e outros modos para se viver juntos, ao mesmo tempo que subtrai passado e futuro com a sua emergência disruptiva.

 

O encontro só é mesmo encontro quando a sua aparição acidental é percebida como oferta, aceite e retríbuída. Dessa implicação recíproca emerge um meio, um ambiente mínimo cuja duração se irá, aos poucos, desenhando, marcando e inscrevendo como paisagem comum. O encontro, então, só se efectua – só termina de emergir e começa a acontecer – se for reparado e consecutivamente contra-efectuado – isto é, assistido, manuseado, cuidado,  (re)feito a cada vez in-terminável.

 

Muitos acidentes que se poderiam tornar encontro, não chegam a cumprir o seu potencial porque, quando despontam, são tão precipitadamente decifrados,  anexados àquilo que já sabemos e às respostas que já temos, que a nossa existência segue sem abalo na sua cinética infinita: não os notamos como inquietação, como oportunidade para reformular perguntas, como ocasião para refundar modos de operar.

 

Com o pressuposto de que primeiro é preciso saber para depois agir, raramente paramos para reparar no acidente: mal ele nos apanha, tendemos a bloquear a sua manifestação ainda precária e incipiente. Recuamos com o corpo e avançamos com o “olhar” – que julga apenas constatar “objetivamente” o que lá está – ou com o “ver”, que parte da premissa de que há um sentido por detrás das coisas, a ser interpretado “subjetivamente”. Num ou noutro caso, chega-se cedo demais com um saber – lei ou ponto de vista, uno ou plural: ambos manipulação. Ambos versões de uma mesma cisão entre sujeito e objecto, a repartir por decreto o que pode e o que não pode cada um destes entes. A setorizar no sujeito, de modo unilateral, toda a capacidade de agência e de produção de sentido, assim como todo o direito de legislar sobre o objecto para fins de diagnóstico, controle, classificação, pacificação do espírito, etc.  Tornado objecto, o acidente é também cancelado na sua inclinação e potência de afectação cabendo, à força, numa certeza ou num “achar”. E assim se vai existindo. “Achando” antes de se encontrar.

 

Sendo esta a lógica dominante a operar no nosso quotidiano – a do desespero e não a da espera; a da urgência e não a da emergência, a da certeza e não a da confiança –um acidente, só é experimentado como tal se tiver a força de uma catástrofe. Se for tão desproporcional na sua diferença, na sua discrepância em relação à nossa expectativa e aos nossos instrumentos de decifração e interpretação, a ponto de se antecipar e se sobrepor ao decreto de objectivação, levando-nos, num só folgo, de sujeitos a sujeitados. Então não o conseguimos ignorar nem o domesticar: ele, simplesmente, cai-nos em cima. Mas o que é trágico, é que mesmo este acidente-catástrofe, tão pouco tende a ser vivido como encontro, já que a cisão entre sujeito e objecto preserva-se, apenas se invertem os seus sinais. Destituídos do controle que julgávamos nos pertencer de direito, paralisamos-nos ultrajados diante da súbita soberania do acidente. Entramos em crise, colocamos tudo em dúvida; culpamos os deuses, os pais, o estado, o país. Em desespero, precipitamo-nos para a arbitrariedade do “tanto faz” ou para a prepotência do “tudo pode”: pomos-nos a resistir. E se mesmo assim não funcionar, pior ainda, pomo-nos a desistir.

 

Só que aí já é tarde – nem o saber se aplica mais, nem os “achismos” nos salvam, nem nos abrimos à estimativa recíproca, perdendo assim a oportunidade de experimentar “ao que sabe” o encontro. Já não detemos o controle e muito menos as certezas que o amparavam. Já claramente não somos nós quem decide. Entretanto, como se nos tivéssemos esquecido de sincronizar os nossos pressupostos à atualização do mundo, permanecemos reféns do decreto que nos dava a ilusão de decidir. E é  aqui que está o nó: não em termos perdido o “poder de decisão” (será que alguma vez o tivemos?), mas em sermos incapazes de tomar uma “des-cisão”, de revogar o decreto da cisão.

 

O mundo em que vivemos hoje é justamente este: aquele em que já percebemos que não podemos decidir, mas ainda não aprendemos a des-cindir. Um mundo em que, atônitos, nos sentimos consecutivamente apanhados por acidente atrás de acidente, crise atrás de crise, incerteza atrás de incerteza. Apanhados pela exasperada sensação de que "já é tarde". “Já é tarde” para insistir na ficção de que detemos o controle. “Já é tarde” para insistir na negação das disparidades, dos conflitos, das discordâncias, das intransigências, dos equívocos tornados lei. "Já é tarde" para insistir em viver "como se" o consenso fosse possível ou mesmo desejável. Para insistir numa existência inabalável, que pretende saber por antecipação, apoiada num nexo apriorístico e transcendente: a cada coisa o seu nome, o seu enquadramento, a sua regularidade; nenhum susto ou risco, tudo explicado, tudo previsto. E isso, tudo isto, já não se sustenta mais.

 

Mas se já não há como prosseguir numa existência acomodada, na pacata desimplicação do "tá-se bem", também “já é tarde” tanto para a resistência  como para a desistência: fica cada vez mais claro que não há "saída" nem “solução” a partir dessas duas maneiras de nos desresponsabilizarmos.

 

E, talvez por isso, seja este o momento justo para estancar o desespero e reparar no que há à volta. Suspender o regime da urgência, criando as condições para uma abertura desarmada e responsável à emergência.  Substituir a expectativa pela espera, a certeza pela confiança, a queixa pelo empenho, a acusação pela participação, a rigidez pelo rigor, o escape pela comparência, a competição pela cooperação, a eficiência pela suficiência, o necessário pelo preciso, o condicionamento pela condição, o poder pela força, o abuso pelo uso, a manipulação pelo manuseamento, o descartar pelo reparar. Reparar no que se tem, fazer com o que se tem. E acolher o que emerge como acontecimento. Reencontrar, naquela matéria simples e quotidiana em relação à qual aprendemos a nos insensibilizar – a matéria da secalharidade – reencontrar aí, nesse comparecer recíproco, toda uma multiplicidade de vias contingentes para abrir uma brecha. Uma brecha para a re-existência.

 

De forma a explorar essa brecha é preciso abdicar das respostas, largar a obstinação por se definir o que as coisas “são”, o que “significam”, o que “querem dizer”, o que “representam”. Deixar de lado a obssessão pelas causas, pelos motivos, pelas razões, e a procura insáciável por identificar e acusar culpados, por fortalecer o lamento – enquanto, impávidas, as consequências vão seguindo os seus rumos. É preciso, justamente, activar um trabalho com as consequências, empenhado em assistir e rastrear no óbvio as oportunidades para entrar em plano comum.

 

Se há alguma razão no encontro, não é a das causas e a dos sensos, mas a razão – o ratio – das distâncias que o com-põe enquanto modulação distributiva de diferenças dinâmicas, autônomas porque co-dependentes. É este tipo de  “razão” que aparece quando nos envolvemos na estimativa das variantes em jogo, no cálculo infinitesimal dos encaixes e das proporções suficientes.

Isso só pode ser feito se revogarmos os escudos protectores seja do sujeito seja do objecto e se largarmos os contornos pré-definidos do eu e do outro. Isso só pode ser feito se não avançarmos de imediato com a vertigem do desvendamento ou com a tirania da espontaneidade, encontrando tempo dentro do próprio tempo das coisas. Um tempo que já lá está, entre o estímulo e a resposta, mas que desperdiçamos na ferocidade com que cedemos ao medo e recaímos no hábito, nas respostas prontas ou numa reação impulsiva qualquer, apenas para saciar o desespero de não saber. Isso só pode ser feito se abrirmos mão do protagonismo, transferindo-o para esse lugar “terceiro”, impuro e precário, que se instala a meio caminho no cruzamento das inclinações recíprocas: o acontecimento.

 

Se nos dermos esse tempo, esse silêncio, essa brecha; se suportarmos manter a ferida aberta, se suportarmos simplesmente (re)parar – voltar a parar para reparar no óbvio até que ele se “desobvie” – então, eis que o encontro se apresenta e nos convida, na sua complexidade embrulhada em simplicidade.

 

Encontrar é ir “ter com”. É um “entre-ter” que envolve desdobrar a estranheza que a súbita aparição do imprevisto nos traz. Desdobrar o que ela “tem” e, ao mesmo tempo, o que nós temos a lhe oferecer em retorno. Desfragmentar, nas suas miúdezas, as quantidades de diferença inesperadamente postas em relação. Retroceder do fragmento (parte de um todo) ao fractal (todo de uma parte).

Relação: encaixe situado entre possibilidades compossíveis que co-incidem.

Relação de relações: uma tendência, um percurso, um acontecimento que só dura enquanto não “é”, que só dura enquanto re-existimos com ele.

Viver juntos é, tão somente, adiar o fim.

 

An encounter is a wound

 

An encounter is a wound. A wound which widens – in a way that is both delicate and brutal – the possible and the thinkable, signalling other worlds and other ways of living together, as it subtracts past and future by way of disruptive emergence.

 

An encounter can only be one when its accidental manifestation is perceived as offered, accepted and returned. From that mutual implication emerges a middle, a minimum environment whose duration will little by little design, mark and inscribe itself as a common landscape. An encounter can only take place – can only stop emerging and start to happen – if it is noticed and consecutively counter-effectuated – this is to say, assisted, handled, cared for, each time (re)made as never-ending.

 

Many accidents that could become encounters never come to accomplish their potential because when they come up they are so hastily decoded, added to what we already know and to the answers we already have, that our existence goes on undisturbed in its infinite kinetics:  we do not acknowledge them as anxiety, as an opportunity to reformulate questions, as an occasion to restructure operative modes.

 

Assuming that we have to know first in order to act afterwards, we hardly stop to take notice of the accident: as soon as we are caught in it, we tend to hinder its still precarious and incipient manifestation. We withdraw our body and move further with the “gaze” – believing it can “objectively” perceive what is there – or by “looking”, assuming there is a meaning behind things which is to be “subjectively” interpreted. In either case, we arrive too soon with what we know – a law or point of view, a unified or a plural one: both are manipulation. Both are versions of the same scission between subject and object, partitioning by decree what each of these entities can and cannot. Unilaterally attributing the capacity to produce agency and meaning to the subject, as well as the right to legislate about the object in order to diagnose, control, classify, and pacify the spirit, etc. Transformed into an object, the accident’s inclination and potentiality to affect are also cancelled and boxed in, by force, in a certainty or in some “I find”. And so we keep existing. Before any encounter, we have already “found”..        

 

This is the dominant logic operating in our day-to-day – the one of despair and not the one of waiting; the one of urgency and not the one of emergency; the one of certainty and not the one of trust – an accident can only be experienced as such if it has the force of a catastrophe. When it is so disproportional in its difference, in its divergence in relation to our expectations and our decoding and interpretation tools, that it precedes and overwhelms the objectivation decree, taking us from subjects to subjected in one go. That is when we cannot ignore or domesticate it: it simply lands on us. But what is tragic is that even this catastrophe-accident tends be experienced not so much as an encounter, since the scission between subject and object is preserved; only its signs are inverted. Dismissed of the control we believed to be ours by right, we find ourselves paralysed, outraged before the sudden sovereignty of the accident. We enter a crisis, doubting about everything; blaming the gods, the parents, the state, the country. In despair, we rush to the arbitrariness of “who cares” or the superiority of “anything goes”: we take to resisting. And if it doesn’t work all the same, then it is even worst, we take to desisting.   

 

And then it is already too late – the fact of knowing does not apply anymore, “findings” do not save us, and neither do we open to mutual estimation; we thus miss the opportunity to experiment what the encounter “tastes like”. We lose control and so the certainties that sustained it. We are clearly not the ones who decide anymore. In the meantime, as if we had forgotten to synchronize our assumptions with the actualisation of the world, we remain hostages of the decree that gave us the illusion that we have decided.  Here is the knot: not in the fact that we lost the “power of decision” (have we ever had it?), but in the fact that we are unable to take a “de-scission”, revoking the decree of scission.

 

The world we live in today is precisely that: the one where we have already understood that we cannot decide, but not yet learned how to de-scissor. A world where we, astonished, uninterruptedly feel caught by an accident after the other, crisis after crisis, uncertainty after uncertainty. Caught in the sensation that it is “too late”. “Too late” to insist on the denial of disparities, conflicts, disagreements, intransigencies, equivoques turned into law. “Too late” to insist on living “as if” the consensus was possible or even desirable. To insist on an unshakeable existence, supported by an aprioristic transcendent nexus: for every thing a name, a frame, a regularity; no frights or risks, everything explained, everything foreseen. And that, all this, is no longer sustainable.

 

It is no longer possible to keep on with an accommodated existence, in the peaceful indifference of the “everything’s fine”, “too late” anyway, both for resistance and for desistence: it becomes clear that there is no “way out” from those two ways of unresponsiveness.

 

And that is precisely why this may well be the right moment to staunch despair and take notice of what surrounds us. To suspend the regime of urgency, creating the conditions for a disarmed and responsible opening to emergence. To replace expectation with waiting, certainty with trust, complaint with commitment, accusation with participation, rigidity with rigor, avoidance with attendance, competition with cooperation, efficacy with sufficiency, the necessary with the precisely needed, conditioning with condition, power with force, abuse with use, manipulation with handling, discarding with repairing. To take notice of what one has, to do with what one has. And welcome what emerges as an event. Reencounter, in that simple and daily matter towards which we are taught to become insensitive – the matter of mayhapness –, reencounter in that mutual attendance, a whole multiplicity of contingent ways to open a breach.  A breach into re-existence.

 

In order to explore that breach, one has to abandon the answers, let go of the obstinacy to define what things “are”, what they “signify”, what they “mean”, what they “represent”. Give up the obsession of causes, motives, reasons, and the insatiable hunting to identify and accuse the guilty ones, to reinforce the lament – while the consequences impassibly pursue their purposes.  Most precisely, we have to activate a work with the consequences, commit to assisting and tracking in the obvious the opportunities to enter a common plane.

 

If there is a reason in the encounter, it’s not the reason of causes or judgments, but the ratio of distances between the positions that assemble in its frame, transforming it into a co(m)position. It is this kind of “reason” that appears when we engage in the guesstimate of the variables at stake, in the infinitesimal calculation of the matches and the sufficient proportions. 

 

This can only be carried out if we revoke the protection shields of the subject and the object, and if we let go of the pre-defined contours of the self and the other. This can only be carried out if we stop moving further too soon, driven by the vertigo of revelation or the tyranny of spontaneity, finding time within the very time of things. A time that is already there, between the stimulus and the answer, but that we squander in the voracity with which we give in to fear and get back to habit, to readymade answers or to whatever impulsive reaction, just to quench the despair of not knowing.  This can only be carried out if we let go of leadership, transferring it into that “third” place, an impure and precarious place that takes place halfway at the crossroads of mutual inclinations: the event. 

If we give ourselves that time, that silence, that breach; if we can put up

with keeping the wound open, if we can put up with simply (re)pairing – stopping anew in order to reconsider the obvious until it “dis-obviates” – then the encounter presents itself and invites us in, with its complexity wrapped up in simplicity.

 

To encounter is about “having something with”. It is an “enter-(main)-tainment – an inter-having –,  that implies unfolding  the strangeness  brought about by the sudden manifestation of the unexpected. To unfold what it “has” and, at the same time, what we have to offer it. To defragment, in minutiae, the amounts of difference unexpectedly put in relation. To go back from the fragment (part of a whole) to the fractal (wholly of a part).

 

Relation: a match situated between compossible possibilities that co-incide.

Relation of relations: a tendency, a pathway, an event that only takes place while it “is” not, that only takes place while we re-exist with it.

Living together is just about postponing the end.

 

Un encuentro es una herida

 

(Traducción: Lucía Thobokholt)

 

Un encuentro es una herida. Una herida que, de una manera tan delicada como brutal, expande lo posible y lo pensable, signando otros mundos y otros modos de vivir juntos, al mismo tiempo que sustrae pasado y futuro con su emergencia disruptiva.

Un encuentro sólo es un encuentro cuando su manifestación accidental es percibida como ofrecida, aceptada y retribuida. De esta implicación recíproca emerge un medio, un ambiente mínimo cuya duración se irá, de a poco, diseñando, marcando e inscribiendo como un paisaje común. Un encuentro, entonces, sólo se efectúa -sólo termina de surgir y comienza a acontecer- si es advertido y, consecuentemente, contra-efectuado -eso es, asistido, manejado, cuidado, (re)hecho cada vez infinitamente.

Muchos accidentes que podrían convertirse en encuentros no llegan a cumplir su potencial porque, cuando despuntan, son descifrados tan precipitadamente, anexados a lo que ya conocemos y a las respuestas que ya tenemos, que nuestra existencia sigue inconmovible en su cinética infinita: no los reconocemos como inquietudes, como oportunidades para reformular preguntas, como una ocasión para refundar modos de operar.

Con el presupuesto de que primero es preciso saber para después actuar, rara vez nos detenemos a reparar en el accidente: ni bien nos golpea, tendemos a bloquear su manifestación aún precaria e incipiente. Retrocedemos con el cuerpo y avanzamos con el “observar” -creyendo que puede ser “objetivamente” percibido como lo que es- o con el “ver”, partiendo de la premisa de que hay un sentido por detrás de las cosas, a ser interpretado “subjetivamente”. En uno u otro caso, llegamos demasiado rápido a lo que creemos conocer -una ley o un punto de vista, singular o plural: ambas una manipulación-. Las dos son versiones de una misma escisión entre sujeto y objeto, que asigna en un orden lo que cada una de estas entidades puede y no puede. Que atribuye de manera unilateral la capacidad de producir agencia y sentido al sujeto, así como el derecho a legislar sobre el objeto para diagnosticar, controlar, clasificar y pacificar el espíritu, etc. Transformado en objeto, la inclinación y el potencial del accidente para afectar son también cancelados y encajonados, a la fuerza, en una certeza o en una especie de “lo encontré”. Y así seguimos existiendo. Conjeturando antes de encontrar.

Desde esta lógica dominante que opera en nuestro día a día -la lógica de desesperar y no la de esperar; la lógica de la urgencia y no la de la emergencia; la lógica de la certeza y no la de la confianza- un accidente sólo puede ser experimentado como tal si tiene la fuerza de una catástrofe. Es así tan desproporcional en su diferencia, en su divergencia en relación a nuestras expectativas y nuestras herramientas de decodificación e interpretación, que precede y oprime el grado de objetivación, llevándonos en un solo aliento de sujetos a sujetados. Ahí es cuando no podemos ignorarlo o domesticarlo: simplemente se nos cae encima.

Pero lo que es trágico es que incluso esta catástrofe-accidente no tiende a ser experimentada como un encuentro, ya que la escisión entre sujeto y objeto es preservada; sólo sus signos son invertidos. Destituidos del control que creíamos nuestro por derecho, nos encontramos paralizados, ultrajados ante la súbita soberanía del accidente. Entramos en crisis, colocando todo en duda, culpando a los dioses, los padres, el estado, el país. Desesperados, nos apresuramos hacia la arbitrariedad del “da lo mismo” o hacia la prepotencia del “todo vale”: nos ponemos a resistir. Y si de todas formas no funciona, es incluso peor: nos ponemos a desistir.

Y entonces ya es demasiado tarde -el hecho de conocer no se aplica más, las “búsquedas” no nos salvan, y tampoco nos abrimos a la estimación mutua-; perdemos así la oportunidad de experimentar el gusto que tiene el encuentro. Perdemos el control y, por añadidura, las certezas que lo sostenían. Claramente ya no somos más los que decidimos. Mientras tanto, como si hubiésemos olvidado sincronizar nuestras suposiciones con la actualización del mundo, quedamos rehenes del decreto que nos provocó la ilusión de haber decidido. Aquí está el nudo: no en el hecho de que perdimos el “poder de decisión” (¿alguna vez lo tuvimos?), sino en el hecho de que somos incapaces de tomar una “de-escisión”, revocando el decreto de escisión.

El mundo en que vivimos hoy es precisamente ése: el mundo donde ya hemos comprendido que no podemos decidir, pero aún sin aprender cómo de-escindir. Un mundo donde, atónitos, nos sentimos consecutivamente atrapados por accidente tras accidente, crisis tras crisis, incertidumbre tras incertidumbre. Atrapados en la exasperada sensación de que “ya es tarde”. “Ya es tarde” para insistir en la ficción de que tenemos el control. “Ya es tarde” para insistir en la negación de las disparidades, conflictos, desacuerdos, intransigencias y equívocos convertidos en ley. “Ya es tarde” para insistir en vivir “como si” el consenso fuese posible o incluso deseable. Para insistir en una existencia inquebrantable, que pretende saber por anticipación, apoyada en un nexo apriorístico y trascendental: a cada cosa un nombre, un encuadramiento, una regularidad; sin sustos o riesgos, todo explicado, todo previsto. Y aquello, todo esto, ya no se sustenta más.

Ya no es posible continuar con una existencia acomodada, en la indiferencia tranquila del “está todo bien” como del “ya es tarde”, tanto para la resistencia como para la desistencia: queda cada vez más claro que no hay salida ni solución a partir de estas dos maneras de desresponsabilizarnos.

Y tal vez por eso, este sea el momento preciso para contener la desesperación y reparar en lo que nos rodea. Suspender el régimen de urgencia, creando condiciones para una apertura desarmada y responsable hacia la emergencia. Sustituir expectativa por espera, certeza por confianza, queja por compromiso, acusación por participación, rigidez por rigor, escape por asistencia, competencia por cooperación, eficiencia por suficiencia, lo necesario por lo preciso, el condicionamiento por la condición, el poder por la fuerza, el abuso por el uso, la manipulación por el palpamiento, el descarte por el arreglo. Reparar en lo que uno tiene, hacer con lo que se tiene. Y acoger lo que emerge como acontecimiento. Reencontrar en esa materia simple y cotidiana en relación a la cual aprendemos a ser insensibles -la materia de la quizacontecimentación[1]-; reencontrar allí, en esa convergencia recíproca, toda una multiplicidad de vías contingentes para abrir una brecha. Una brecha para la reexistencia.

En pos de explorar esa brecha, es preciso abandonar las respuestas, soltar la obstinación por definir lo que las cosas “son”, lo que “significan”, lo que “quieren decir”, lo que “representan”. Dejar de lado la obsesión por las causas, los motivos, las razones y la demanda insaciable por identificar y acusar culpables, por reforzar el lamento -mientras, impávidas, las consecuencias van siguiendo sus ritmos. Es necesario, justamente, activar un trabajo con las consecuencias, comprometido en asistir y rastrear lo obvio de las oportunidades para ingresar en un plano común.

Si existe alguna razón en el encuentro, no es la de las causas o los juicios, sino la razón – o la proporción- de las distancias que com-ponen como modulaciones distributivas de diferentes dinámicas, autónomas y a la vez co-dependientes. Es este tipo de “razón” que aparece cuando nos involucramos en la estimación de las variantes en juego, en el cálculo infinitesimal de los ajustes y las proporciones suficientes.

Esto sólo puede ser realizado si revocamos los escudos protectores del sujeto y del objeto y si soltamos los contornos predefinidos de lo uno y de lo otro. Esto sólo puede ser realizado si dejamos de avanzar de inmediato, movidos por el vértigo de la revelación o por la tiranía de la espontaneidad, encontrando tiempo dentro del propio tiempo de las cosas. Un tiempo que ya está allí, entre el estímulo y la respuesta, pero que desperdiciamos en la vorágine con que cedemos ante el miedo y recaemos en el hábito, en las respuestas confeccionadas o en cualquier reacción impulsiva, únicamente por saciar la desesperación de no saber. Esto sólo puede ser realizado si soltamos el protagonismo, transfiriéndolo hacia ese “tercer” lugar, impuro y precario, que se instala a medio camino en el cruce de las inclinaciones recíprocas: el acontecimiento.

Si nos damos ese tiempo, ese silencio, esa brecha; si toleramos mantener la herida abierta, si toleramos simplemente r(e)parar -volver a parar para reparar en lo obvio hasta que se “desobvie”-, entonces es que el encuentro se presenta y nos invita, con su complejidad envuelta en simplicidad.

Encontrar es un ir “teniendo con”. Es un “entre-tener” que implica desenvolver la extrañeza que la súbita aparición de lo imprevisto nos trae. Desenvolver lo que “tiene” y, al mismo tiempo, lo que nosotros tenemos para ofrecerle en retorno. Desfragmentar, en sus menudencias, las cantidades de diferencia que se ponen en relación inesperadamente. Retroceder desde el fragmento (la parte de un todo) hacia el fractal (el todo de una parte).

Relación: enclave situado entre las posibilidades compositivas que coinciden.

Relación de relaciones: una tendencia, una ruta, un acontecimiento que solamente persiste mientras no “es”, que solamente persiste en tanto re-existimos con él.

Vivir juntos es, tan sólo, posponer el final.

 

 

________________________________________________________________________________________________________________

 

[1] Traducción posible de secalharidade, que convierte en sustantivo la expresión se calhar -tal vez, quizás, probablemente- y que remite a su vez al verbo calhar, que nombra el surgir de cosas o acontecimientos en momentos oportunos, pertinentes (N. de T.).