Para uma Situ-acção do Modo Operativo AND


Para citar este texto (inédito):

2108. (original) Para uma situ-ação do Modo Operativo AND [on-line]. Disponível em: AND Doc | Acervo Digital do AND Lab





E agora, (mais) uma situ-acção


O Modo Operativo AND (MO_AND) é uma investigação dos funcionamentos do acontecimento e da relação, dos modos como nos posicionamos e das consequências que daí emergem. É uma investigação dos jogos de improvisação envolvidos no trabalho de construir e sustentar, em acto, a convivência recíproca. É também uma ética, na medida em que procura frequentar uma modulação dos funcionamentos vitais que opera no plano do não-saber e da não-expectativa, uma modulação que todes nós já temos connosco, mas que tende muitas vezes a ser obscurecida por um outro mecanismo, que costuma ser o privilegiado na cosmovisão ocidental moderna: aquele do significado e da representação – e, ainda, aquele da sobre-significação interpretativa.


O MO_AND emergiu no campo da antropologia como experimentação do que pode(ria) ser uma etnografia recíproca (vivida de modo radical enquanto performance situada do encontro) e como pesquisa exploratória dos potenciais usos políticos colectivos da sua sensibilidade descritiva-circunscritiva. Tornou-se, ao longo dos anos, a partir duma contaminação intensiva com o campo da performance, numa ferramenta de uso transversal a várias áreas, estruturando-se, actualmente, sob a forma de um sistema de improvisação e com-posição-com, que oferece um conjunto de instrumentos para o estudo praticado das políticas da convivência e das capacidades de auto-observação em acto e de tomada de decisão situada.


O (contra)dispositivo do jogo é usado em diversos níveis nesta investigação, funcionando como ambiência para a pesquisa praticada dos mecanismos de emergência e sustentação do acontecimento e para a frequentação de uma ética da suficiência. Para o treino, enfim, de uma disponibilidade para acolher o que não se sabe e o que não se espera, trabalhando na própria consistência do posicionar-se: do posicionamento de si na relação com o entorno, tendo em consideração aquilo que se tem – ou seja, as condições concretas e possíveis que cada encontro propicia, e não as ideais.


Por um lado, é através de um constante jogo de transdução performativa com palavras e de invenção conceptual que se vai construindo o conjunto singular das chamadas ferramentas-conceito do AND. Estas, embora carreguem uma dimensão teórica, propõem-se aouso directo e concreto durante os exercícios, sendo activadas como moduladoras da presença e experimentadas como disparadoras de reprogramações sensíveis. Por outro lado, os diversos exercícios do AND articulam-se sempre sob a forma de jogos. O sistema AND, portanto, envolve um conjunto de jogos performativos das mais diversas ordens (com coisas e corpos, matérias de estúdio ou da rua), que procuram criar as condições para (re)pensar-fazer colectivamente – a cada encontro, a cada grupo (pois é também preciso dizer que se trata de uma investigação que toma como lugar privilegiado a oficina de transmissão) – o imenso, infindável e encompassador jogo da vida em que estamos todes implicades. Talvez porque “o real precisa de ser ficcionado para ser pensado”(Rancière).


No MO_AND a interface do jogo não-competitivo improvisacional funciona enquanto “simulador de acidentes” e propiciador da activação de uma simultaneidade dentro/fora, que permite exercitar a sustentação do fora no dentro e do dentro no fora. Trabalhando com escalas de menorização/maximização do (in)visível e de redução/ampliação do espaço e do tempo, os jogos AND permitem frequentar a atenção ao comum, a disponibilidade ao imprevisto e a alegria da comunidade, articulando-se como convite a uma investigação experiencial dos (des)dobramentos do acontecimento, através do manejo directo da sua propagação em regras imanentes e sempre provisórias.


A possibilidade de jogar o AND começa a partir do momento em que somos interrompides por um acidente de qualquer ordem, e que nos dispomos a aceitá-lo e reconhecê-lo enquanto tal. O acidente suspende passado e futuro, sendo já um imenso trabalho treinar a nossa sensibilidade para não querermos imediatamente saber, domesticar, já entender, já interpretar, já avançar com o nosso nexo. Ao realizarmos (no sentido de admitirmos e reconhecermos) o intervalo existente entre um qualquer estímulo que nos confronta – algo que nos interrompe e nos faz parar – e a nossa subsequente resposta, abrimos uma brecha para realizarmos (darmo-nos conta e performarmos) de que neste intervalo reside a possibilidade de construir não apenas a resposta, mas uma resposta, outra, singular, situada, contingente e sobre a qual nenhuma das pessoas envolvidas têm, de facto, poder para legislar de antemão, prever ou predeterminar. Podemos então parar novamente (re-parar), transformando este lapso temporal, às vezes ínfimo, num espaço-tempo e, em vez de usá-lo para diagnosticar ou interpretar a matéria do evento, podemos então optar por iniciar um trabalho de reparagem – inventário do que há, das alturas em que o que há co-incide com o que temos a oferecer, e do que cada uma dessas possíveis direcções relacionais potencia. Deixamos de ter como critério para a tomada de posição qualquer regra transcendente, para nos dedicarmos ao trabalho em filigrana do reparar, do cálculo situado das affordances (Gibson) do encontro e, entre elas, da que oferece doses mais equilibradas de intensidade e extensividade potencial para a relação que está a emergir.


Uma vez que nos posicionamos consecutivamente deste modo até ao ponto da emergência de um plano comum consistente – ou seja, uma regra imanente – o jogo passa a jogar-se na sustentação desta regra imanente, através de um trabalho de manuseamento atento das quantidades de repetição e diferença, que introduzimos a cada novo gesto, e dos problemas situados que vão surgindo na duração, bem como do acolhimento das micro-variações da regra imanente ou mesmo do seu eventual esgotamento (por ter sido vivida ao limite e/ou pelo surgimento de um novo acidente ou interrupção). Esgotamento ou novo acidente, este leva ao reinício do mesmo procedimento: parar, re-parar, reparar e reparar. Ou ainda, dito de outro modo: posição, relação entre posições, relação entre relações, relações entre relações entre relações.




Situar o jogo, jogar em situação


Dentro da caixa de ferramentas do Modo Operativo AND, uma das interfaces que permite explicitar e treinar esta prática de atenção, sintonizando o nosso funcionamento social ao funcionamento vital, consiste num exercício de escalas, que permite gerar dentro do espaço da sala de trabalho uma espécie de “mundo dentro do mundo”.


No caso deste exercício, o que se propõe é transformar o modo operativo transversal da convivência num jogo de tabuleiro no qual, estabelecendo uma zona de atenção partilhada através do procedimento do recorte de um dentro e um fora provisórios (demarcados com fita adesiva no chão, por exemplo) e usando materiais do quotidiano (aqueles que geralmente chamamos de objectos), temos a possibilidade de exercitar a reparagem com uma matéria ao mesmo tempo menor que nós em escala e “menos importante” que as nossas grandes questões da vida. Estes recursos permitem activar mais prontamente a disponibilidade, por envolverem uma matéria que, de imediato, se inscreve no plano da ludicidade e não das opiniões entrincheiradas. O dispositivo tabuleiro também torna possível que qualquer pessoa tome parte no jogo independente da idade ou background. Além disso, o recurso a esta pequena escala permite ficar à volta de uma situação – e não dentro dela – o que ralenta o tempo e facilita seguir e fazer o “rastreamento descritivo” (Latour) das dobras e desdobras, posição a posição, jogada a jogada, que levam à emergência de um acontecimento e não de outro, e à instalação de uma situação e não de outra. Por tudo isso, o jogo AND funciona como uma oportunidade para nos concentrarmos num trabalho investigativo minucioso e muito concreto das consequências de cada uma das nossas decisões e escolhas, abrindo a possibilidade de exercitar o nosso posicionamento, procurando incidir menos em posições fechadas e implícitas, e mais num plano de autonomia e suficiência: construir posições suficientemente abertas para convidar (sem entretanto obrigar) outres a participar; e suficientemente explícitas para dispensar a explicação e desencorajar a interpretose. Muito rapidamente este pequeno “mundo dentro do mundo”, a despeito da sua materialidade lúdica e aparentemente banal, coloca-nos questões, interpela-nos com impasses, dúvidas, e com a necessidade de tomada de decisões; revela-nos os nossos padrões e tendências; confronta-nos com o desafio de encontrar situadamente o que é possível juntes, gerindo as nossas doses pessoais de desejo, interesse e engajamento versus aquilo que, a cada momento, a situação pede. Podemos, a partir daí, ir ampliando as escalas, até ao ponto de devolver esta prática de improvisação da reciprocidade ao plano da vida quotidiana, trabalhando com a matéria da rua, dos nossos desejos, dos nossos projectos de criação etc.


Diferentemente dos jogos de tabuleiro habituais, neste não existe pré-demarcação ou pré-desenho no tabuleiro; não existem peças ou materiais particulares que compõem a colecção pertinente ao jogo (literalmente qualquer coisa pode servir para jogar) e, o principal: não existem regras prévias. Não sabemos que jogo estamos a jogar até que joguemos e sustentemos minimamente o jogo por tempo suficiente para que um comum emirja entre nós. O desafio, aliás, é justamente esse: confrontades com a possibilidade de (re)construir um mundo – como somos cada vez que o inesperado acontece – reactivamos logo o Modo Operativo É de sempre, representando (voltando a apresentar) as mesmas regras de saber-poder implícitas e fechadas características do pensamento e do modo de vida identitários? Ou seríamos já capazes de performar em acto algo mais próximo da “sismogénese recíproca” (Bateson), ou da “fantasia da idiorritmia” (Barthes)?


Será esta a proposta deste jogo de posição-com (e não de composição): encontrar situadamente, através dum compromisso com o performar concreto do conectivo E, uma sintonização possível para que possam co-operar juntos os mais variados, heterogéneos e não raro conflituantes ritmos, volições e matérias que nos per-fazem, experimentando a cada vez as doses e as modulações variadas com as quais participar na constituição de um plano comum, sempre provisório e aberto, cuja sustentação depende justamente de uma capacidade de auto-regulação e transformação constantes. Isto só é possível se abdicarmos de aceder ao comum pela via do consenso, o que implicaria cancelar os modos operativos singulares em favor de um só modo operativo que se impõe como suposta média ou acordo. Mas, igualmente, isto só é possível se tão-pouco prosseguirmos alimentando uma visão liberal em pequena escala, na qual propagamos uma percepção equivocada da liberdade como sendo equivalente a um espontaneísmo sem entraves – que acaba, na prática, por se consumar como multiplicação de micro-tiranias insensíveis umas às outras, cada ume zelando pelo seu direito de fala e de opinião, e ninguém disponível para a escuta, ninguém zelando pelo entre, pelo co-operar, levando assim ao “pseudo-juntes” da fragmentação, um mundo no qual estamos contígues sem, entretanto, nos relacionarmos de facto. Co-operar envolve um caminho muito mais delicado, o da desfragmentação (ou fractalização) de si, de modo a disponibilizar os nossos afectos como matéria para a construção situada de um modo operativo comum.


Para isso, o Modo Operativo AND propõe conjugar duas práticas, awareness e justeza, uma a ser feita antes e a outra depois de cada tomada de posição individual.


A primeira só pode ser activada por cada praticante individualmente, num trabalho consigo próprio e com os seus afectos: trata-se de um trabalho de “fazer-com”, que procura os pontos de potencial co-incidência (incidência no mesmo espaço-tempo) entre o desejo pessoal e o acontecimento colectivo, buscando sempre que possível activar posições que consigam entrar em meta-estabilidade entre ambos. Trata-se de um trabalho que reconhece aquilo que se passa no plano do acontecimento individual (e que nomeamos como querer, crença, vontade, interesse, gosto, etc.) como força, não como poder: a sua potencialidade de produzir consequências vitais, tanto para si quanto para o colectivo depende da capacidade de dar forma a esta força sem negligenciar o entorno, mas, ao contrário, fazendo-com ele. Se as tomadas de posição individuais puderem incidir a partir deste trabalho de manuseamento atento, muito possivelmente grande parte do cuidado com a sustentação do colectivo já acontecerá neste nível, dispensando um constante esforço colectivo de “apagamento de incêndios”. Ou seja, o modo mais justo para desactivar o regime de urgência em que vivemos contemporaneamente é, sem dúvida, um trabalho de atenção à emergência. Este trabalho de geração de clareza num plano pessoal procura, justamente, que o reparar – na sua modulação de constante arranjo e reabilitação para o uso – possa antecipar-se ao salvar, desarmando este último como modo “por defeito” das nossas relações.


A segunda prática, por sua vez, envolve o modo como o colectivo acolhe as tomadas de posição individuais quando estas já aconteceram. Ou seja, havendo ou não um cuidado no plano das micro-decisões, o trabalho do grupo não é o de acusar, julgar ou comentar aquilo que emerge, mas sim de acolher. Uma vez que a tomada de posição individual se materializa, há muito pouca serventia em transformar a relação num “discutir da relação”, que passa a ocupar-se de sentenciar culpades enquanto o acontecimento continua se desenrola sem ser cuidado. O colectivo sustenta-se ou não a partir da matéria do que acontece, não do que poderia ter acontecido. Não há como voltar atrás ou apagar o gesto que pôs em causa a sustentabilidade do grupo – e apontá-lo só irá fazer com que as regras imanentes que vinham sustentando a vitalidade colectiva enrijeçam e se tornem transcendentes: ao invés de funcionarem como moduladoras do juntes, são subitamente evocadas para sentenciar o certo e o errado; tornam-se, pois, modelos de conduta. Ou seja, da perspectiva do grupo, a emergência de uma tomada de posição individual não co-operante precisa, portanto, de funcionar como acidente ou primeira posição, não valendo a pena perder tempo em avaliar quem a tomou. O que importa, a esta altura, não é o “quem” ou o “porquê” de um posicionamento, mas o seu “quê-como-quando-onde” que se materializa no acontecimento comum e convida a suspender as regras imanentes que vinham a ser praticadas até então: a reiniciar o jogo, a re-parar (parar novamente) para reparar (notar) e, assim, re-formular a relação, a relação entre as relações e as próprias regras, preservando-as imanentes.


A princípio, o jogo AND de tabuleiro parece propor algumas condições de que não dispomos na escala da vida: começarmos “do zero” e, por conta da escala reduzida dos materiais do jogo em relação aos nossos corpos, manusear um acontecimento a partir de um “fora”. Na vida, ao contrário, estamos sempre a meio e em meio: não apenas nunca podemos partir “do zero”, como tão-pouco podemos intervir numa situação senão de dentro. Estes recursos, entretanto, mesmo no jogo, têm um carácter provisório. O “estarmos de fora” do jogo, por ser um jogo com objectos, é mesmo um efeito apenas aparente – que é eficaz sobretudo para quebrar o gelo ao propor esta prática a um grupo novo, e para encorajar a participação de todes, mesmo aquelus que não se sintam confortáveis em trabalhar com o próprio corpo como matéria para uma improvisação em estúdio/ atelier. Entretanto, muito rapidamente fica claro que o corpo enquanto agente está sempre lá – seja porque os próprios objectos, ao contrário do que prega a nossa cosmovisão moderna, são também agentes, seja porque os corpos de quem participa se manifestam e se prolongam nos modos como os objectos são manuseados e cuidados. Conforme se joga, vai ficando claro que o recurso do estar “à volta” de um problema comum, propiciado pelo tabuleiro, apenas materializa o “entre” existente em qualquer relação: o jogo é a conversa, as jogadas são as nossas “falas” e estamos dentro do problema o tempo todo. Já o começar “do zero” pode nem ser activado por quem joga: basta que ume jogadore opte por trabalhar com qualquer ínfimo detalhe que já lá esteja no tabuleiro (o tabuleiro vazio não está jamais vazio), como uma pequena mancha ou ranhura na superfície, por exemplo, e já estamos a começar pelo meio. Ou, para sermos mais precisos ainda, mesmo que a primeira jogada não se relacione com o tabuleiro enquanto matéria-meio, ela só é mesmo primeira e originária para os demais jogadores: para aquelu que a propõe, ela é resultado de um jogo consige próprie e com os materiais, de uma decisão mais ou menos explícita para si próprie, mais ou menos veloz, mas que é processual, foi se fazendo antes de finalmente ir parar ao tabuleiro como proposta. Ela é sempre meio.


Este pequeno detalhe abre a possibilidade de explicitarmos a dimensão fractal do socius, obviamente também presente na escala da vida, e creio que nela reside a genuína potência da mudança social. Por um lado, no reconhecimento – no tornar pensável e praticável – de um mundo que opera por multiplicidade; um mundo que é “feito-facto” (Latour) multidireccional e multicentrado, e que começa a acontecer em cada agente antes de tomar corpo de acontecimento colectivo e partilhado. Isso abre o espaço para que todes e cada ume percebam que participam – quer trabalhem consequentemente sobre isso ou não – no mundo que se materializa à sua volta. Somente neste pequeno intervalo – entre a formulação e a execução de uma tomada de posição individual, há imenso trabalho potencial a fazer – em termos de uso ético da própria força – que pode resultar em micro-reposicionamentos e, estes, como no efeito borboleta, no espraiar de outras políticas de convivência que, por sua vez, podem fazer o corpo daquilo que aparecerá, na grande escala colectiva, como uma mudança social.


Por outro lado, há esta outra dimensão que o jogo do tabuleiro revela: o acidente, ao emergir, faz “zero” para quem nele re-para. Não propriamente porque elimine tudo que há à volta e faça do entorno um quadro em branco – continuamos sempre a meio, povoades de processos vitais de idades variadas, frágeis e precários justamente porque vivos, e que são tudo o que temos como recurso, seja para manter ou para mudar – mas porque suspende o sentido-direcção do que há. Ou seja, a cada vez que somos interrompides, que as nossas expectativas não se cumprem, que o que pretendemos não acontece, a cada vez que somos afectades ou surpreendides, há também a oportunidade de mudança social – a oportunidade de aceitar a suspensão provisória do passado e do futuro e encontrar um novo jogo com o presente manifesto. Seja, portanto, da parte de quem propõe uma jogada ou da parte de quem a recebe – no jogo AND jogado no tabuleiro ou na vida – a mudança é sempre uma possibilidade concreta, mas que envolve o risco de não saber, de não ter respostas prontas, nem objectivos pré-definidos. A mudança está em potência a cada intervalo relacional, mas no mais das vezes preferimos – conscientemente ou não – reiterar os velhos jogos ao invés de nos disponibilizarmos a enfrentar a micro-construção de novos jogos, auto-geridos e auto-sustentados por todes que nele tomarem parte, sem a chancela de um sentido prévio.


O comum custa, mas não por se fazer “às custas” da liberdade: pelo contrário, é porque nos confronta com o desafio (e a responsabilidade) de a exercermos, de facto, de não termos um jogo dominante à partida, a funcionar como script ou fórmula para as condutas e, portanto, de termos de construir as nossas tomadas de posição, a cada vez, a partir de uma sensibilidade ao que é com-possível e de uma disponibilidade constante para a escuta situada do que já lá está, num jogo ilimitado de co-operação que se vai fazendo enquanto performar-concretizar contínuo de uma política de reciprocidade para a convivência.




Referências Citadas

Barthes, Roland. 2003. Como viver junto. Simulações romanescas de alguns espaços cotidianos. Cursos e seminários no Collège de France 1976-1977. Texto estabelecido, anotado e apresentado por Claude Coste. São Paulo: Martas Fontes.

Bateson, Gregory. 1987. Steps to an Ecology of Mind: Collected Essays in Anthropology, Psychiatry, Evolution, and Epistemology. Northvale, New Jersey, London: Jason Aronson Inc.

Deleuze, Gilles; Parnet, Claire. 1977. Dialogues. Paris: Flammarion.

____________. 2006. Hedonismo Competente. Antropologia de urbanos afetos. Tese de doutoramento. Orientação: Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: PPGAS, Museu Nacional.

_____________. 2010. Manifesto AND. Um outro mundo possível, a secalharidade. (Das relações entre a Etnografia Recíproca e a Filosofia do Acontecimento). Projeto (Pós-Doutorado)-Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa;

____________. 2012. “Glossário AND” em AND Mag, revista electrónica do AND Lab [online], revisão e edição de Liliana Coutinho. Lisboa.

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Gibson, J. 1977. “The Theory of Affordances”. Pp. 67-82 em Perceiving, acting, and knowing: toward an ecological psychology, editado por R. Shaw e J. Bransford. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates.

Latour, Bruno. 2005. Reassembling the social: an introduction to Actor-Network-Theory. New York: Oxford University Press.

____________. 2002. Reflexão sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches. Bauru, SP: Edusc.

Rancière, Jacques. 2005. A partilha do sensível. São Paulo: Editora 34.




[1] Aí incluem-se as próprias formulações Modo Operativo É, OU e E – que são apresentadas já sob a forma de diferentes modos de jogar o “jogo da vida” (Eugenio 2010), e mesmo, de um modo direto, a formulação do Modo Operativo AND enquanto “jogo das perguntas Que-Como-Quando-Onde” ou “jogo de descrição-cicunscrição-performação”. O jogo com a materialidade e o sentido das palavras perpassa todas as formulações conceituais que sustentam essa prática, conformando uma espécie de “estilo”, no sentido que lhe dá Deleuze em conversa com Parnet (Deleuze & Parnet 1977). Por exemplo, na tripla modulação Re-parar/Reparar/Reparação, que funciona como síntese do procedimento AND, e aparece ainda nas expressões inventadas pré-paragem e reparagem. Ou, ainda, na presença frequente de relações de tensão para situar a operatividade que se procura ativar com o AND: Composição/Posição-Com, Decisão/Des-cisão, Saber/Sabor, Resistência/Re-existência, Manipulação/Manuseamento, Coerência/Consistência, Explicação/Implicação, Representação/Presentação, Eficiência/Suficiência, (In)dependência/Autonomia, Relevância/Relevo, Rigidez/Rigor, Justiça/Justeza, (des)Fragmento-Fractal, Acaso/Co-Incidência etc (Eugenio 2012). Está também presente no Diagrama do Posicionamento: feito do cruzamento de dois eixos-vetores, Aberto-Fechado e Explícito-Implícito, permite situar o território da posicionalidade AND na combinatória Aberto-Explícito, tendo como extremo oposto o Modo Operativo É (situado no território da combinatória Fechado-Implícito), e como duas zonas de possível despiste e confusão com o funcionamento recíproco do E, mas que atuam, de facto, por Modo Operativo OU, aquelas formadas pelas combinatórias Aberto-Implícito ou Fechado-Explícito.

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Fernanda Eugenio, 2018

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