Um quase-manifesto ante o Irreparável

Texto inédito. Versões parciais e processuais deram corpo aos anúncios das Escolas de Verão AND de 2018 e 2019.



Para citar este texto: 

Eugenio, Fernanda Quase-Manifesto ante o Irreparável, 2019 [on-line]. Disponível em: Acervo Digital do AND Lab




Um corpo transbordante, um pronunciamento enquanto fervilhar:


Tomar a questão do Irreparável é, na relação com a emergência do Modo Operativo AND, um re-tomar, ao mesmo tempo que não podia ser mais actual, nesta pesquisa que tem caminhado, nos anos mais recentes, para o destralhamento de si própria. Para uma interpelação directa – cada vez mais franca, firme e microscopicamente atenta ao sensível – da ferida aberta entre a irreparabilidade fundadora, hegemónica e tendencialmente reiterativa do mundo-como-É e as (im)possibilidades de dar corpo a um mundo-como-E, através da prática consistente e sustentada de uma ética de reparação.


Completa-se assim uma volta na espiral iniciada há precisamente 17 anos, no âmbito das minhas pesquisas de doutoramento (2002-2006), que me permitiram elaborar a primeira formulação-proposição-análise do que poderiam (ser) os modos de vida AND no plano das relações íntimas.


O reencontro com esse campo de inquietação e o (re)começar a tactear essa questão deu-se por des-cisão, no início de 2018, a partir da vivência íntima de uma morte, levando à escrita do texto que se segue, em dois tempos (antes de cada uma das duas últimas edições da escola de verão AND em Lisboa). Deu-se, o reencontro, quando, após uma vida a trabalhar tão minuciosa e comprometidamente com o reparar enquanto ferramenta ético-política, dei conta, outra vez (mas pela primeira vez nestes termos), que é Irreparável (além de pretender-se também Imparável, mobilização infinita) aquilo que emerge como consequência dos modos operativos É.


O que me levou, brutalmente, ao reencontro do óbvio: dedico-me ao impossível.


ACONTECE QUE, AO LIDAR COM O IRREPARÁVEL, O IMPOSSÍVEL DA TAREFA A TORNA URGENTE.


Assim, perante o arrebatamento por este afecto forte, não há volta a dar. Ao mesmo tempo - e sem contradição -, há que preparar(-se) suficientemente, re-começando, a cada agora, a re-unir as forças. Ou ainda: não parar de (re)conhecer no continuar o já ter começado e, nos tantos (re)começos, o continuar. E então continuar a continuar.

É e será preciso deixar-se arrastar e, mais uma vez, como desde sempre, ao mesmo tempo que como nunca antes, acolher o acidente, aceitando re-situar a investigação numa escala ainda mais proximal e microscópica, e trabalhar assumidamente com os modos como damos corpo ao mundo e mundo ao corpo:


COM A MATÉRIA DA DOBRA ENTRE O ÍNTIMO E O POLÍTICO.



***


Mais uma vez, a proposta é fazer com o que se tem.


Situar esta investigação, então, nos (i)limites-confins do Reparar – a operação-síntese do Modo Operativo AND, na sua tripla acepção de parar de novo (re-parar), inventariar atentamente e manusear em concerto.


Experimentar a frequência das suas bordas, beiras, quase-abismos: pré-parar para nos prepararmos, prepararmo-nos para pré-parar ante o Irreparável, assim freando a sua reprodução.

Para isso, dispormo-nos a esgarçar o corpo, nas suas miudezas, indagando nele e com ele todas as variantes, gradações e antípodas da operação Reparar.


Por um lado, voltar a tensionar as ferramentas já existentes do Modo Operativo AND exercitar a fractalização, a des-hierarquização e a redistribuição meta-estável da atenção, bem como a sua materialização em co(m)passionamento e em gesto suficiente.


Por outro lado - e táctica principal quando se trata de confrontar o Irreparável -, habitar as alianças mais improváveis, tanto na potência inerente de re-pergunta e de re-estranhamento, como na potência de agregação de esforços em mutirão. Encontrar e desencontrar, quantas vezes for (im)preciso.


A aposta – aposta de pesquisa, a ser (re)percorrida em vivência usando a matéria afectiva desses próprios encontros e desencontros, pois não teria como ser de outro modo – é a de que o grau de reparabilidade do mundo-como-é deriva directamente do grau de consistência, justeza, firmeza e franqueza com o qual se habita e se encara este vínculo entre o íntimo e político, que é também a passagem que não cessa de se fazer e refazer, entre o dentro e o fora, a forma-sujeito e o acontecimento.


A aposta, ainda, é a de que uma ética de reparação só poderá emergir da justa afinação desses fluxos, numa concertação recíproca entre o infinitesimal e o cósmico, e num reconhecimento de que a luta pela descolonização precisa de ser/estar preparada (e pré-parada) debaixo da pele. Não propriamente porque precise de ser planeada (embora, se calhar, também) mas porque consistirá num já estar parade, lá onde o Irreparável não pára, nunca, de (re)constituir o mundo-como-é.


Uma primeira pergunta, a não responder, mas a proliferar como território de (an)coragem:


COMO FAZER PARA SI UM CORPO DE LUTA?


Reivindicamos, para compor este território de pesquisa situada, uma Presença e uma Luta: presença sem Eu, luta sem reactividade. Exposição sem exibição, recusa sem antagonismo. Não a presença que se debate com as questões da representação espectacular, pois comparecer é explicitar as próprias fragilidades e não forjar a aparência de uma força. Não a luta que se organiza como entrincheiramento sectário, disputa pelo poder ou mimetização-perpetuação da violência, pois é de firmeza e não de intransigência que se trata, "de falhar de novo e de falhar melhor" (como na máxima de Beckett): de escutar mais do que falar e de dizer sem fazer calar. E, embora só se possa lutar em contacto com a força-fragilidade das próprias feridas, também só se pode lutar em co(m)passionamento: lá, onde as feridas são de ume porque de todes, de todes porque de ume. Lutar é co-incidir, é “estar à altura do acontecimento” (como na definição da ética em Deleuze), assim como agir eticamente é uma luta constante. Lutar é a materialização da ética: é a sua per-forma-ação.


Reivindicamos um corpo de luta para “fazer (n)o difícil” (e agora, como em Nancy) que é, a todo e a cada dia, recomeçar pelo meio – pelo incontornável da usurpação -colonização constituinte do mundo-como-é – e refazer aí, situadamente, a co-implicação e a co-operação. E desviar, aí, outra e outra vez, todas as “pistas falsas” infiltradas nos modos de fazer e de viver construídos como se fossem dados.


Tal como o desorganismo acarreta um esforço e um risco que começam por ser solitários, também um corpo de luta precisa de começar (ou parar) no entre-si, para continuar através de um entre-maior-do-que-si: um entre-muitas ou entre-todas as coisas humanas e não-humanas.


Pan-sensibilidade, trans-corporificação: será possível manifestar outros dos nossos Múltiplos, além daquele que viemos a chamar de “Eu”? Será possível começar por expropriar e desautorizar “Este que Sempre Fala”, através de uma multiplicação do em-si-mesmade em um milhão de escutas outradas? Será possível começar a dissidência pelo auto-descondicionamento?


Confiamos que não é apenas possível, nem apenas necessário: é também impossível e preciso e, por isso mesmo, talvez seja a única chance ante o Irreparável.


Ante o Irreparável, comparecer envolverá encontrar modos singulares e, portanto, múltiplos, de operar o que poderá ser um ANDbodiment – a corporificação de um cuidado distribuído, suficiente, recíproco e equânime – num empenho continuado em não perpetuar o Irreparável em (também) Irreparado.


Assumir o Irreparável, aceitá-lo e reconhecê-lo – desde um plano microscópico, invisível, doméstico, até àquele da sua enunciação mais exposta, pública e colectiva – já começa a dar corpo à dissidência e a per-formar o corpo de luta. Corpo de não-endosso e, portanto, da descontinuação do mundo-como-é.


Um corpo de luta não se faz sem que se gere atenção a toda e a cada uma das suas partes, das suas camadas constituintes, geológicas e geográficas. Um corpo de luta não se faz sem torná-las moventes e movediças, sem desfragmentá-las, reconhecendo-se como agregado não-compulsório, para o qual nenhuma organização tem prerrogativa de auto-evidência. Não se faz sem enfrentar em si o desafio da descolonização dos regimes da intimidade, dos modos do só no juntes, em especial nas formas mais imediatas e próximas de relação; sem des-privatizar os desejos e as volições; sem des-normatizar as suas ecologias e noções de saúde e bem estar; sem des-automatizar padrões reincidentes, hábitos de comportamento e conversas internas – monólogos da interpretose e do ponto de vista – que não cessam de restaurar o mundo-como-é, num plano infinitesimal, à revelia daquilo que se possa reivindicar e pretender (re)presentar no plano identitário-societário.


É então preciso – mas é tão impreciso! – termo-nos para entre-termo-nos.


E DISSEMINAR O AMOR. POIS SOMOS FEITES UMES DE OUTRES, UMES POR OUTRES, UMES PARA OUTRES.


É preciso, então, aceitando que será sempre tão impreciso, habitar-investigar o amar enquanto gesto de cuidado-curadoria, operando-o através da experimentação radical com os limites-tensão do Reparar; do desdobramento de tácticas de (an)coragem no plano da corporeidade; de práticas encarnadas de (auto)etnografia – capazes de (nos) acompanhar (n)a luta político-afectiva pelo que queremos e podemos enquanto comunidades – e de um trabalho microscópico, proximal e firme com as potências dissidentes desta mancha a que chamamos “amor”, ao mesmo tempo difusa e já tão marcada-desgastada, reabrindo-a enquanto força de efectuação do ingovernável, enquanto modo-multiplicidade do inter-ferir e do des-imunizar.


Fazer do amor disseminado uma modulação não-reactiva de desobediência civil; um instrumento de regeneração e curadoria colectiva; um exercício de destituição, despossessão e desaprendizagem de comportamentos (auto)opressivos e, ao mesmo tempo, de sintonização pela intersecção e pela obliquidade, pelo impróprio e pelo alheio. Uma força de strangership: de acolhimento do desconforto inevitável implicado nesse esgarçar do possível, do pensável e, sobretudo, do sensível; de acompanhamento no risco e de sustentação do desconhecido-desconhecível. Uma prática de, ao mesmo tempo, “dar(-se)” e continuar a “ter(-se)”, conjugando, sem contradição, tanto um questionamento dos habituais contornos da noção de intimidade/privacidade (naquilo em que estes reproduzem a lógica da propriedade privada capitalista) quanto a afirmação da autonomia do corpo e das suas regras imanentes, do seu direito inalienável à singularidade e à (re)invenção.


Fazer do amor disseminado, enfim, simultaneamente um treino comprometido de des-hierarquização da atenção, uma prática situada de justeza e suficiência, uma via de retomada dos territórios expropriados do desejo, das forças invisíveis e do vocabulário sensível para circunscrevê-las e validá-las – a elas e ao plano de afinação em potência no qual o consentimento possa, de facto, cada vez mais, mediar os encontros, sobretudo enquanto um suportar(-se) recíproco, um com-sentir.


Ao propor a pesquisa experiencial, tão solitária como inevitavelmente colectiva, do amor enquanto exercício de cuidado-curadoria – e, portanto, de eventual trans-formação (reabertura, ultrapassagem e superação da forma) –, desejamos ainda mergulhar nas vizinhanças infinitesimais e cósmicas do processo de passagem da composição à posição-com: indagar, no corpo e nas sensações, modos concretos de acompanhar, de perto em perto, as demais operações aí implicadas, de decomposição e reposição (reposicionalidade), de disposição (disponibilidade) e de recomposição. De testemunhar os afectos que aí comparecem até à sua dissipação, curando, juntes, o só, e, sós, o juntes.


Desejamos começar este exercício delicado de curadoria íntimo-política pelo ínfimo gigantesco de cada ume e de cada entre; compactuar em zonas temporárias de intimidade que possam, menos e menos, depender do gosto, da eleição, da concordância, da identificação ou do entendimento. Seguir, então, em modo distributivo, experimentando, a cada vez, o reencontro possível com o funcionamento da dádiva.


Não planear a mudança, nem sequer saber no que deve ou pode consistir. Não mirar o grande objectivo de saltar para um outro mundo (que, deste modo, acabaria por ser um outro mundo-como-É) mas persistir no reabrir da consistência das formas e no acompanhar(-se) nesta passagem. Pois “amar jamais é estar juntes, mas devir juntes”.


E tudo isto porque investigar modos e tácticas para reparar (n)o Irreparável consistirá, talvez, em frequentar este território, abismal e aporético, no qual


REPARAR CHEGA A COINCIDIR COM O DESTRUIR E O MATAR. E COMO MATAR ETICAMENTE O SISTEMA NÃO PODERIA COMEÇAR DE OUTRO MODO SENÃO POR MATÁ-LO INTIMAMENTE,


numa luta de si para consigo pela descolonização sensível, confrontamo-nos com um compromisso de (auto)cuidado e (auto)amor que implica, radicalmente,


PESQUISAR MODOS DE (NÃO) MORRER.


À questão disparadora da in-terminável pesquisa a que se dedica o Modo Operativo AND, acerca das políticas da convivência – como viver juntes? – aglutinam-se, então, indagações emergenciais e cruamente concretas:


Como morrer juntes? como viver só? como matar(-se) sem morrer?


Como encerrar o irreparável ciclo da dívida, feito-facto do saque colonial-capitalista, e (re)entrar no ciclo da dádiva?


Como liberar o amor e fazer dele força de libertação para a reparagem-reparação de qualquer relação, reconhecendo que todas as nossas relações são, cada uma à sua maneira, relações de amor (ou que o amor é a forma, talvez a única, da própria relação)?


Como activar uma luta amorosa – essa vigília sem tréguas, essa navegação (im)possível e (im)precisa entre a cumplicidade e a reciprocidade?


Como tomar coragem e tornar-se ancoragem?


Como ver e fazer ver a impermanência das coisas e daí derivar um mundo equânime?


Como desintoxicar a percepção e fazer do ver, simultaneamente, um pouco mais e um pouco menos do que a reprodução da cosmovisão hegemónica – na qual ver coincide com saber e opera a ilusão da separabilidade?


Como passar do ver ao reparar, que é um ver adensado de presença, um ver encorpado que escuta, que tacteia, fareja e saboreia? Como passar da cosmovisão à cosmosensação e, assim, para um modo de estar atento à inseparabilidade e à delicada quasidade de tudo que é/vai sendo?


Como, a partir daí, quase-conseguir uma utopia talvez ainda mais vasta do que a disponibilidade para re-parar (parar de novo ante aquilo que interrompe o nexo do sabido e a aceleração da expectativa): estar pré-parade, no duplo sentido de ir passando do modo desespero ao modo desapego, do modo controle ao modo suporte?


Será possível espectrar-se e (des)aparecer, a partir da realização dos próprios fantasmas (tudo aquilo que comparece)? Será possível sintonizar-se com as sensibilidades outras, vegetais e minerais, operando, a cada vez, a des-ilusão da falta, da pressa, do objectivo, da finalidade, do significado, do poder, do protagonismo?


É ISSO, então, que desenha o campo de forças desta investigação encarnada: o desejo de exercitar o desmapeamento do amor, de refazê-lo experimentalmente enquanto performação do comparecimento e da implicação; enquanto compromisso com a tomada de posição equânime e consequente,


ANTE O IRREPARÁVEL, NA SUA TRIPLA MODULAÇÃO:


O IRREPARÁVEL, aquele manifesto na porção de incalculável e de indiscernível (de imprevisível e, quiçá, mesmo de inevitável) sempre presente em tudo que há; que não cessa de explicitar o não-saber como condição coincidente com o viver, a pedir por franqueza e a expor a vulnerabilidade radical enquanto atravessamento comum que, ao mesmo tempo, nos une e nos separa - e que só pode mover-nos juntes em co(m)passionamento.


O IRREPARÁVEL, aquele implicado na irreversibilidade e na incessabilidade do próprio acontecer, que nos lança (a)o desafio de não desistir nem resistir, de não sucumbir à indiferença/impotência nem à intransigência/apego, encontrando, a cada vez, a justa medida da aceitação não-resignada, da presença co-responsiva, do acompanhar(-se) (n)o manejo das consequências emergentes desse desdobrar, sem apelar à narrativa e à criação de coerência, sem pretender controlar.


O IRREPARÁVEL, por fim, e sobretudo, aquele que funciona como estruturante do mundo-como-É, assente na irremediável e incompensável operação da usurpação/colonização, que faz do trauma o modo quase unívoco da individuação, assente, no limite, numa proliferação de variadas versões de uma mesma cisão, que separa sujeitos e sujeitades, pervertendo o ciclo da dádiva (vínculo baseado na reciprocidade e no E enquanto conectivo mínimo) em ciclo da dívida (vínculo perverso que se instaura, através da fixação hierárquica de papéis, corrompendo o dar - tornado privilégio de mandar - e o retribuir - tornado obrigação de obedecer - e eliminando a escuta sensível que operaria o receber enquanto gesto situado e singular).



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Dizer tudo isto não é já saber como sair desta (ou entrar nesta).

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Fernanda Eugenio, 2018

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