Um quase-manifesto ante o Irreparável 

Fernanda Eugenio (2018)

Texto orginal produzido em abril de 2018, inicialmente para operar como sinopse da proposta da edição #3 da Escola de Verão AND.

 

Para citar este texto (inédito):

2018. (original) Um quase-manifesto ante o Irreparável [on-line]. Disponível em: AND Doc | Acervo Digital do AND Lab

 

 

 

Elegendo como foco a PRÉ-PARAÇÃO, uma das novas ferramentas-conceito emergentes nas investigações actuais desdobradas no Modo Operativo AND, pretende-se que a edição#3 da Escola de Verão AND seja território de preparação (inventário, experimentação e sistematização de exercícios) para a pesquisa duracional com a qual o AND Lab se ocupará durante o próximo ano de 2019: a habitação intensiva da também recém-formulada palavra-conceito IRREPARÁVEL e da questão “O que pode uma ética de reparação”. 

 

Começar desde já a tactear essa questão deu-se por des-cisão. Acontece, ao lidar com o Irreparável, que o impossível da tarefa a torna urgente. Ao mesmo tempo - e sem contradição -, há que preparar(-se) suficientemente. Porque toda a reparação será sempre insuficiente e porque desde sempre é já tarde demais, começar agora a re-unir as forças. Ou ainda: reconhecer no continuar o já ter começado e, nos tantos re-começos, o continuar. E então continuar a continuar.

 

--- É também o afecto forte pelo Irreparável que faz a rebeldia desta apresentação: também ela corpo transbordante, começou por tentar ser sinopse e foi-se escrevendo na direção do quase-manifesto. Pronunciamento antes do salto, pronunciamento enquanto fervilhar. Porque este tomar para si a questão do Irreparável é, na relação com a emergência do próprio Modo Operativo AND, um re-tomar: completa-se aqui uma volta na espiral que, há mais de 15 anos, permitiu elaborar a primeira formulação-proposição-análise do que poderiam (ser) os modos de vida E no plano das relações íntimas. ----

 

A proposta para a edição #3 da Escola de Verão AND será, então, situar a investigação numa escala proximal e microscópica, trabalhando com a matéria da DOBRA ENTRE O ÍNTIMO E O POLÍTICO e com os modos como damos corpo ao mundo e mundo ao corpo. A aposta – aposta de pesquisa, a ser percorrida em vivência com os cúmplices-colaboradores do AND Lab e quem mais se sentir convocado – é a de que o grau de (ir)reparabilidade do mundo-como-é deriva directamente do grau de consistência deste vínculo, que é também a passagem que não cessa de se fazer e refazer, entre o dentro e o fora, o sujeito e o acontecimento. A aposta, ainda, é a de que uma ética de reparação só poderá emergir da justa afinação desses fluxos, numa concertação recíproca entre o infinitesimal e o cósmico, e num reconhecimento de que a luta pela descolonização precisa de ser/estar pré-parada debaixo da pele. Não propriamente porque precise de ser planeada (embora, se calhar, também) mas porque consistirá num já estar parade, lá onde o Irreparável não pára, nunca, de (re)constituir o mundo-como-é.

           

A proposta será, então, situar esta investigação colectiva nos (i)limites-confins do Reparar – a operação-síntese do Modo Operativo AND, na sua tripla acepção de parar de novo (re-parar), inventariar atentamente e manusear em concerto. Experimentar a frequência das suas bordas, beiras, quase-abismos: pré-parar para nos prepararmos, prepararmo-nos para pré-parar ante o Irreparável, assim freando a sua reprodução. Para isso, dispomo-nos a esgarçar o corpo, nas suas miudezas, indagando nele e com ele todas as variantes, gradações e antípodas da operação Reparar. A pergunta, a não responder, mas a proliferar em território de (an)coragem: COMO FAZER PARA SI UM CORPO DE LUTA?

           

Reivindicamos, para compor este território de pesquisa situada, uma Presença e uma Luta: presença sem Eu, luta sem reactividade. Exposição sem exibição, recusa sem antagonismo. Não a presença que se debate com as questões da representação espectacular, pois comparecer é explicitar as próprias fragilidades e não forjar a aparência de uma força. Não a luta que se organiza como entrincheiramento sectário, disputa pelo poder ou mimetização-perpetuação da violência, pois é de firmeza e não de intransigência que se trata, "de falhar de novo e de falhar melhor" (como na máxima de Beckett): de escutar mais do que falar e de dizer sem fazer calar. E embora só se possa lutar em contacto com a força-fragilidade das próprias feridas, também só se pode lutar em co-passionamento: lá onde as feridas são de ume porque de todes, de todes porque de ume. Lutar é co-incidir, é “estar à altura do acontecimento” (como na definição da ética em Deleuze), assim como agir eticamente é uma luta constante. Lutar é a materialização da ética: é a sua per-formação. 

           

Reivindicamos um corpo de luta para “fazer (n)o difícil” (e agora, como em Nancy) que é, a todo e a cada dia, recomeçar pelo meio – pelo incontornável da usurpação-colonização constituinte do mundo-como-é – e refazer aí, situadamente, a co-implicação e a co-operação. E desviar, aí, outra e outra vez, todas as “pistas falsas” infiltradas nos modos de fazer e de viver construídos como se fossem dados. 

Tal como o desorganismo acarreta um esforço e um risco que começam por ser solitários, também um corpo de luta precisa de começar (ou parar) no entre-si, para continuar através de um entre-maior-do-que-si: um entre-muitas ou entre-todas as coisas humanas e não-humanas.

           

Pan-sensibilidade, trans-corporificação: será possível manifestar outros dos nossos Múltiplos, além daquele que viemos a chamar de “Eu”? Será possível começar por expropriar e desautorizar “Este que Sempre Fala”, através de uma multiplicação do em-si-mesmado em um milhão de escutas outradas? Será possível começar a dissidência pelo auto-descondicionamento? 

           

Confiamos que não é apenas possível, nem apenas necessário: é também impossível e preciso e, por isso mesmo, talvez seja a única chance ante o Irreparável. 

           

Ante o Irreparável, comparecer envolverá encontrar modos singulares e, portanto, múltiplos, de operar o que poderá ser o ANDbodiment – a corporificação de um cuidado distribuído, suficiente, recíproco e equânime – num empenho continuado em não perpetuar o Irreparável em (também) Irreparado. 

           

Assumir o Irreparável, aceitá-lo e reconhecê-lo – desde um plano microscópico, invisível, doméstico, até àquele da sua enunciação mais exposta, pública e colectiva – já começa a dar corpo à dissidência e a per-formar o corpo de luta. Corpo de não-endosso e, portanto, da descontinuação do mundo-como-é.

           

Um corpo de luta não se faz sem que se gere atenção a toda e a cada uma das suas partes, das suas camadas constituintes, geológicas e geográficas. Um corpo de luta não se faz sem torná-las moventes e movediças, sem desfragmentá-las, reconhecendo-se como agregado não-compulsório, para o qual nenhuma organização tem prerrogativa de auto-evidência. Não se faz sem enfrentar em si o desafio da descolonização dos regimes da intimidade, dos modos do sozinho no juntes, em especial nas formas mais imediatas e próximas de relação; sem des-privatizar os desejos e as volições; sem des-normatizar as suas ecologias e noções de saúde e bem estar; sem des-automatizar padrões reincidentes, hábitos de comportamento e conversas internas – monólogos da interpretose e do ponto de vista – que não cessam de restaurar o mundo-como-é, num plano infinitesimal, à revelia daquilo que se possa reinvidicar e pretender (re)presentar no plano identitário-societário. É então preciso – mas é tão impreciso! –termo-nos para entre-termo-nos. E assim recursivamente.

           

Dizer tudo isto não é já saber como sair desta (ou entrar nesta). Os procedimentos da PRÉ-PARAÇÃO estão por ser cartografados-inventados, embora já se avolumem algumas pistas dadas pelo saborear. Mais uma vez, a proposta é fazer com o que se tem. Por um lado, voltar a tensionar as ferramentas já existentes do MO_AND para exercitar a fractalização, a des-hierarquização e a redistribuição metaestável da atenção, bem como a sua materialização em co-passionamento e em gesto suficiente. Por outro lado - e táctica principal quando se trata de afrontar o Irreparável -, habitar as alianças, tanto na potência inerente de re-pergunta e de re-estranhamento, como na potência de agregação de esforços em mutirão.

           

Por isso, nesta Escola de Verão #3, propomos colocar as ferramentas do MO_AND para vibrar em conversa com outras forças: as ferramentas Bodyfulness do Movimento Autêntico, tal como praticado pela Soraya Jorge e pelo Guto Macedo; os procedimentos de afinação sensível das Práticas de Atenção propostas pela Sílvia Pinto Coelho; as incipientes Práticas Ético-Somáticas emergentes na mais recente linha de pesquisa do AND Lab, o ANDbodiment (na qual trabalho em colaboração, nesta edição da escola, com a Ana Dinger, a Flora Mariah e a Milene Duenha); além de um acompanhamento-supervisão de todo o processo pelo Eduardo Passos e pelo Iacã Macerata, ao fazerem o tracking dos modos como o MO_AND se (pode) torna(r) Prática de Cuidado e Intervenção.