WHAT?

[O QUÊ?]

O AND LAB

 

O AND Lab | Centro de Investigação em Arte-Pensamento & Políticas da Convivência é uma plataforma de pesquisa praticada que se dedica ao desdobramento contínuo, à transmissão e partilha e à aplicação do Modo Operativo AND (MO_AND), uma metodologia para a investigação experiencial da relação e da reprocidade, de cunho ético-estético e político, criada pela antropóloga e artista brasileira Fernanda Eugenio.

 

De aplicabilidade transversal às mais diversas áreas – do manejo quotidiano do viver-juntxs à criação colaborativa; das práticas artísticas às práticas de cuidado; do trabalho de mediação ao trabalho de intervenção; do cartografar dos afectos individuais às lutas por transformação e justiça social –, o MO_AND pode sintetizar-se num triplo procedimento: Re-parar, fazer a Reparagem e sustentar a Reparação. O compromisso de praticar os conceitos – tornando-os em ferramentas e devolvendo-os ao uso de uma forma muito directa e no terreno – é o que imprime ao MO_AND o seu carácter ao mesmo tempo singular e amplo.

 

O conectivo E (AND), que dá nome ao centro de investigação e ao modo operativo com o qual trabalhamos, sintetiza uma abordagem que não se baseia nem no saber (a lógica do É) nem no achar (a lógica do OU), mas no sabor e no encontrar (a lógica do E).

 

Com sede em Lisboa (Portugal) e núcleos locais em Madrid (Espanha) e em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo (Brasil), o AND Lab oferece uma programação multiforme e geograficamente distribuída – predominantemente entre Europa e América do Sul – que decorre das suas três linhas de actuação: a investigação-criação, a transmissão-partilha e o acompanhamento-cuidado.

 

O Programa de Investigação e Criação abriga diferentes linhas de pesquisa e projectos colaborativos, além de acolher o trabalho de incessante (re)invenção conceptual e de criação de artefactos e interfaces variadas para a (a)presentação do MO_AND (publicações, performances e eventos como exposições, ocupações ou ciclos temáticos). O programa mobiliza investigadores associados e colaboradores directos, sendo também aberto a investigadores visitantes (pesquisadores do MO_AND ou criadores/pesquisadores, provenientes de qualquer área, comprometidos com a questão do Comum).

 

O Programa de Transmissão e Partilha abrange várias actividades regulares de formação abertas à participação de qualquer pessoa – escolas, laboratórios e oficinas –, além de oferecer periodicamente temporadas de encontro para a prática continuada, a conversa e a troca de procedimentos.

 

O Programa de Acompanhamento e Cuidado disponibiliza diferentes possibilidades de relação individualizada com o MO_AND: a aplicação orientada no âmbito das nossas residências assistidas ou através de consultoria; o cuidado singularizado em sessões individuais para o acompanhamento de processos; e o processo formativo acompanhado, percurso individual para a formação de mediadores creditados do MO_AND.

 

Funcionando como lugar comum para a convergência entre arte e pensamento, teoria e prática, modos de existência e modos de criação, o AND Lab opera no encontro entre as duas inquietações transversais – como viver-juntxs? e como não ter uma ideia? – que resumem a filosofia habitada do Modo Operativo AND.

O MODO OPERATIVO AND

 

O Modo Operativo AND (MO_AND) consiste numa ética do Re-parar, da Reparagem e da Reparação, sistematizada num conjunto de ferramentas-conceito e de proposições-jogo que, ao mesmo tempo, propõe e propicia:

 

  • a investigação directa e experiencial dos funcionamentos do Acontecimento e da Relação;

  • a explicitação dos modos de emergência e de sustentação de acontecimentos comuns metaestáveis;

  • a sensibilização às condições de possibilidade contingentes-impermanentes de cada encontro e às consequências políticas dos posicionamentos individuais e/ou colectivos;

  • a afinação das capacidades de distribuição não-hierárquica da atenção e de (re)inventário trajectivo do possível, simultaneamente no plano da auto-observação em acto e no plano do mapeamento da situação envolvente;

  • o treino da disponibilidade à diferença e ao acidente/imprevisto, da comparência atempada, da tomada de decisão situada e da colaboração dissensual;

  • a transferência de protagonismo do sujeito para o acontecimento, ou seja, a prática co-passionada da presença;

  • o exercício de uma equiparação consistente entre autocuidado e cuidado do entorno e entre o discurso proferido e a sua efectuação no fazer;

  • a frequentação exploratória de disposições subjectivas e relacionais dissidentes para a performance íntima e social dos afectos, numa pesquisa de alternativas aos modelos identitários e aos scripts pré-definidos e hierarquizados.

Este sistema, concebido e desdobrado pela antropóloga e artista Fernanda Eugenio, é uma investigação viva e aberta, em constante transmutação e a partir de uma confrontação deliberada e insistente com o uso e com a prática.

 

Ao longo de mais de quinze anos dedicados a esta pesquisa, Fernanda Eugenio designou-a de diferentes modos, até à estabilização no nome Modo Operativo AND. O seu carácter distintivo reside sobretudo na força, na consistência e na singularidade do arcabouço conceptual original por ela entretanto desenvolvido, que conforma o vocabulário performativo pelo qual o MO_AND é reconhecido.

 

Algumas das ferramentas-conceito e das proposições-jogo criadas por Fernanda Eugenio são:

  • a tripla modulação do reparar: re-parar, reparagem, reparação;

  • a tripla modulação da posição: dis-posição, (com)posição-com e re-posição;

  • as políticas da convivência Modo Operativo É, Modo Operativo OU e Modo Operativo E (AND);

  • o Jogo das perguntas QUÊ-COMO-QUANDO-ONDE;

  • o jogo de descrição-circunscrição e formulação-performação Isto-Isso-Isto;

  • o Diagrama Aberto-Explícito para a tomada de posição;

  • conceitos-neologismos, tais como secalharidade, pensacção e co-passionamento;

  • jogos de palavras e de relações-tensão, tais como: Decisão/Des-cisão, Saber/Sabor, Manipulação/Manuseamento, Fragmentação/Desfragmentação, Eficiência/Suficiência, Coerência/Consistência, Justiça/Justeza, Relevância/Relevo, Condicionante/Condição, Rigidez/Rigor, Representação/Presentação, Interpretação/Circunscrição, Implicação/Explicação, Implicitação/Explicitação, Exibição/Exposição, (A)Parecer/Comparecer, Significado/Direcção, Certeza/Confiança, Necessário/Preciso, (In)dependência/Autonomia.

O MO_AND apoia-se na activação do (contra)dispositivo do jogo não-competitivo e de regras imanentes como meio para a delimitação provisória de uma zona de atenção colectiva; como simulador de acidentes e como propiciador de uma simultaneidade entre dentro e fora. O recurso ao recorte – o tabuleiro de jogo -  permite a instalação de “mundos dentro do mundo” e a exploração de diferentes escalas de menorização/maximização do (in)visível e de redução/ampliação do espaço e do tempo, estimulando o desenvolvimento de uma sensibilidade fractal, atenta e minuciosa às modulações relacionais da reciprocidade (justo meio entre a complementaridade e a simetria) e da suficiência (justo meio entre a eficiência e a desistência).

 

O MO_AND é uma prática transversal e sem pré-requisitos, partilhada em oficinas, escolas e laboratórios abertos à participação de qualquer pessoa interessada em estudar, de modo vivencial, as (micro)políticas implicadas na operacionalidade e na sustentabilidade do viver-juntxs, bem como a praticar a ‘criatividade’ noutros termos: deslocada do registo autocentrado e expandida em inventividade divergente e eticamente comprometida com a justeza.

 

A experimentação ‘laboratorial’ da fractalização da percepção, aliada à ética proposta pelo MO_AND, tem efeitos concretos no comportamento, promovendo uma sensível diminuição da reactividade e do julgamento, uma correspondente ampliação da autonomia e da franqueza e uma tendência à sintonização entre afectos individuais e acontecimentos colectivos. Com a continuidade da prática, esses efeitos vão-se transpondo para a vida quotidiana e se infiltrando nos modos de ser-estar e criar-fazer, levando a sensíveis re-posicionamentos subjectivos e sociais.

TRAJETÓRIA & HISTORIAL

 

O AND Lab e o Modo Operativo AND, tal como hoje se estruturam, emergiram como consequência da extensa trajectória de investigação-inquietação de Fernanda Eugenio desde os anos 2000, marcada por colaborações intensivas, deslocações e desvios, entre a pesquisa académica estrita e uma investigação singular e cada vez mais indisciplinada dos usos artísticos e políticos da etnografia como ferramenta circunscritiva-performativa.

 

Esta pesquisa, sendo processual, sintetizou-se de diferentes modos e com diversas nomenclaturas ao longo desses anos – Sistema É-Ou-E, Modo de Vida E, Etnografia Recíproca, Etnografia como Performance Situada, Reprograma, Reparagem, Pensacção – até adoptar a actual nomenclatura Modo Operativo AND, firmada durante uma fase de colaboração com o coreógrafo português João Fiadeiro.

 

A primeira formulação do Modo Operativo AND surgiu em 2002, com o pano de fundo da antropologia, no âmbito da sua pesquisa de doutoramento, realizada, entre 2002 e 2006, no Museu Nacional, Rio de Janeiro, Brasil. Seguiu-se uma aproximação ao campo das artes performativas e uma transversalização crescente do AND enquanto conjunto de ferramentas, que levou à emergência de uma vasta rede de colaboradores e interlocutores das mais diversas áreas: sem prejuízo da relação com as práticas artísticas (performativas, cénicas e visuais) e com os estudos de performance, foram ganhando especial relevo os cruzamentos com as práticas de cuidado e mediação na psicologia (em particular na clínica transdisciplinar e de território), na pedagogia, no serviço social, no serviço educativo de museus e centros culturais, mas também no activismo, na arquitectura e no urbanismo táctico. Surgiram ainda prolíficas conversas e aplicações do Modo Operativo AND em áreas tão diversas quanto a informática, a agricultura e a alimentação ou as neurociências. 

 

A colaboração de longa duração entre Fernanda Eugenio e João Fiadeiro, iniciada em 2009, sob a forma de iniciativas pontuais entre Brasil e Portugal, foi formalizada num projecto produzido pela estrutura Real e apoiado pela dg-artes, entre 2011 e 2014. Assim, num primeiro momento, entre 2011 e 2012, o AND Lab foi, sobretudo, um projecto de investigação: simultaneamente projecto de pós-doutoramento em Antropologia de Fernanda Eugenio no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e iniciativa em colaboração com a estrutura Real. Nessa altura, João Fiadeiro tinha suspendido o seu trabalho enquanto autor, acolhendo este “laboratório de etnografia recíproca”, proposto por Fernanda Eugenio, no qual a ética AND por ela pesquisada viria a ser colocada, sistematicamente, em conversa com o método da Composição em Tempo Real (CTR), desenvolvido pelo coreógrafo desde os anos 90.

Datam deste período as conferências-performance Secalharidade (2012) e O Jogo das Perguntas (2013), que procuraram sintetizar a filosofia habitada do Modo Operativo AND. Foram anos de experimentação intensiva, durante os quais os dois chegaram a pensar que as suas ferramentas – o Modo Operativo AND e a Composição em Tempo Real – formariam um só conjunto de práticas. Em Março de 2013, ainda neste enquadramento, os dois fundaram o AND Lab como centro de investigação, num movimento que o fazia passar de projecto a lugar. A primeira sede do AND Lab foi no Atelier Real, em Lisboa – sede também da Companhia Real, de João Fiadeiro.

Entretanto, durante o ano de 2013 e, principalmente, em 2014, foram-se evidenciando – em especial com o regresso de João Fiadeiro a um trabalho autoral – as profundas diferenças entre o Modo Operativo AND e a CTR: o primeiro foi confirmando a sua inclinação para um uso transversal e pronunciadamente político, comprometido com uma ética praticável no plano da vida quotidiana; a segunda foi reencontrando o seu lugar sobretudo como ferramenta de composição coreográfica e metodologia de autor.

O progressivo regresso de João Fiadeiro aos palcos foi visibilizando a prerrogativa estética da CTR e explicitando o quanto esta envolve um tipo de corpo privilegiado (veloz, pronto e sem memória) e é informada pelo imaginário do coreógrafo. O Modo Operativo AND consolidou-se enquanto ética e modo de vida – a estética, existindo, é sempre, e tão somente, consequente de uma ética – e como conjunto de ferramentas de uso colectivo aberto a qualquer tipo de corpo, matéria ou inquietação. Ainda que possa ser utilizado na prática artística, o MO_AND compromete-se sobretudo com uma aplicação no plano das micropolíticas de reciprocidade que sustentam a vida (em) comum.

O uso intensivo e os interlocutores que se foram juntando à volta das duas práticas ajudaram a clarificar estas diferenças. Cessou o tempo de colaboração entre os dois, preservando-se o reconhecimento da riqueza que esse período trouxe a ambas as pesquisas. Ainda hoje são partilhados alguns procedimentos, entre os quais o jogo de tabuleiro, embora cada pesquisa lhes dê um uso distinto. Também parte do vocabulário actual praticado por João Fiadeiro na CTR foi alimentado pela filosofia AND.

A partir de 2015, a plataforma AND Lab, sob a direcção somente de Fernanda Eugenio, tornou-se itinerante: saiu do Atelier Real e foi acolhida por diferentes estruturas da cidade de Lisboa. Entre meados de 2015 e meados de 2016,  tomou a forma de associação cultural sediada na mesma cidade. Actualmente, realiza a maior parte das suas actividades nas dependências do equipamento municipal Polo Cultural das Gaivotas, além de terem sido abertos três núcleos locais do AND Lab no Brasil - em Curitiba (desde Novembro de 2017), no Rio de Janeiro (desde Janeiro de 2018) e em São Paulo (desde Agosto de 2018) e um na Espanha - em Madrid (desde Junho de 2018). A rede de interlocutores do AND Lab e do Modo Operativo AND, já antes transversal, concretiza-se, nos últimos anos, em projectos e iniciativas cada vez mais variados, num percurso de espalhamento também geográfico – entre Brasil, Chile, Argentina, Portugal, Alemanha, Itália, Áustria, França, Espanha, Grécia, República Checa, Reino Unido, EUA e Vietname.

 

EQUIPA | SEDE & NÚCLEOS

SEDE

AND LAB SEDE: LISBOA, PORTUGAL

 

CONCEPÇÃO, DIRECÇÃO GERAL & DIRECÇÃO ARTÍSTICA

COORDENAÇÃO LOCAL & COLABORAÇÃO DIRECTA 

CONTABILIDADE

PLANEAMENTO & DESIGN

COLABORADORES DOS PROGRAMAS

NÚCLEOS

O AND Lab conta com três núcleos de prática continuada do Modo Operativo AND no Brasil (em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Curitiba) e  um na Espanha (em Madrid). Estes pólos locais se somam a diversos grupos de estudo surgidos por iniciativa autónoma de praticantes do MO_AND nos últimos anos, em diferentes localizações geográficas. A proposta dos núcleos é a de fazer lugar a partir do compromisso com a frequentação continuada, ou seja, de sustentar um espaço regular de encontro, conversa, prática e partilha à volta das ferramentas do Modo Operativo AND, que se estenda ao longo de todo o ano. A este espaço de encontro regular e extensivo, junta-se o compromisso de realizar uma temporada intensiva por ano, na qual se oferece uma programação em bloco, composta por  oficinas, residências, apresentações e um laboratório de verão, com a presença de Fernanda Eugenio e colaboradores directos, além de colaboradores locais e outros interlocutores.

AND LAB CURITIBA (BRASIL): e-mail | grupo facebook

COORDENAÇÃO: Francisco Gaspar Neto e Milene Duenha

AND LAB RIO DE JANEIRO (BRASIL): e-mail | grupo facebook

COORDENAÇÃO: Guto Macedo, Iacã Macerata, Letícia Barbosa e Mariana Pimentel

AND LAB SÃO PAULO (BRASIL): e-mail

COORDENAÇÃO: Naiá Delion

AND LAB MADRID (ESPANHA): e-mail | site | grupo facebook

COORDENAÇÃO: Samuel Sardinha

 

PARCERIAS & APOIOS

LISTA DE PARCERIAS

& APOIOS DO AND LAB

Fernanda Eugenio, 2018

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